IA na Precificação: Como Varejistas Estão Ajustando Preços por Margem, Estoque e Concorrência sem Perder a Confiança do Cliente
Por Enio Moraes
Fundador da movimento.ai
Uma rede de varejo com 20 mil itens e 150 lojas toma, na prática, milhões de decisões de preço por ano. Na maioria das empresas, essas decisões ainda dependem de planilhas, de reuniões semanais e do bom senso de quem conhece a categoria. O resultado é previsível: preços que ficam defasados por semanas, promoções que sacrificam margem sem necessidade e produtos encalhados que poderiam ter sido liquidados a tempo.
A precificação com IA ataca exatamente esse intervalo entre o que o mercado mostra hoje e o que a empresa consegue ajustar amanhã. A seguir, o caso ilustrativo de um varejista de médio porte e o que ele ensina a quem decide.
O problema: milhares de decisões, poucos analistas
Considere um varejista de material de construção, caso ilustrativo com números plausíveis, não de uma empresa específica. A equipe de pricing, com seis pessoas, revisava os preços das categorias principais a cada duas semanas. Os outros itens ficavam semanas sem revisão. Dois sintomas apareciam com frequência: produtos de giro lento acumulando estoque e itens muito procurados vendidos abaixo do que o cliente aceitaria pagar.
O gargalo não era falta de dados. Vendas, estoque, preços de concorrentes e calendário de campanhas já existiam. Faltava capacidade de cruzar tudo isso em escala e com frequência.
Como o modelo funciona
O sistema combina três camadas. A primeira estima a elasticidade de cada item: quanto a demanda cai ou sobe quando o preço muda. A segunda lê sinais do dia a dia, como nível de estoque, sazonalidade, preço da concorrência e dias até o vencimento ou até a próxima reposição. A terceira aplica as regras de negócio definidas pela diretoria: margem mínima, limites de variação por semana, itens de imagem de preço que nunca podem subir e coerência entre produtos relacionados.
Resultados do caso ilustrativo
Depois de seis meses em operação, ainda no caso ilustrativo, o varejista passou a revisar a totalidade do catálogo toda semana, e os itens de maior giro diariamente. A equipe de seis pessoas deixou de montar planilhas e passou a analisar apenas as exceções, cerca de 8% das sugestões. Os números plausíveis para esse tipo de projeto:
- Melhora de 1 a 2 pontos percentuais na margem bruta das categorias cobertas.
- Redução de cerca de 15% no estoque de giro lento, com liquidações feitas antes de o produto virar encalhe.
- Ciclo de revisão de preços caindo de duas semanas para um dia nos itens críticos.
Um ponto merece atenção: o ganho de margem não veio de aumentar preço em toda parte. Veio de acertar onde havia espaço para subir um pouco e onde baixar mais cedo traria giro. Em varejo de alto volume, uma fração de ponto percentual já representa valor relevante.
O que um executivo precisa decidir antes de começar
Três decisões não são técnicas e pertencem à liderança. Primeiro, a confiança do cliente: preço que muda sem critério corrói a percepção de justiça. Defina quais itens são marcadores de preço e nunca entram no modelo, e quanto um preço pode variar em uma semana. Segundo, o limite legal e reputacional: o modelo não deve usar dados pessoais para cobrar valores diferentes de pessoas diferentes, e a política precisa estar alinhada à LGPD e ao Código de Defesa do Consumidor. Terceiro, a governança: quem aprova as exceções, quem pode desligar o sistema e como o resultado é medido contra um grupo de controle, para que o ganho seja comprovado e não apenas atribuído à IA.
Precificação com IA funciona melhor como um sistema que amplia a capacidade do time de pricing, com regras claras e supervisão por exceção. A tecnologia sugere; a empresa decide os limites. Quem começa por uma categoria piloto, mede com grupo de controle e só então escala, chega ao ganho de margem sem comprometer a relação com o cliente.
